Um novo paradigma no CME

Pesquisa comprova que PPS termodesinfetados podem ser armazenados por até 70 dias

A Enfermeira Carmen Eulalia Pozzer

Com uma longa trajetória na Enfermagem, a coor­denadora do CME da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Carmen Eulalia Pozzer, identificou uma lacuna no conhecimento sobre a pre­servação da desinfecção de Produtos para Saúde (PPS) submetidos à desinfecção térmica. A pesquisa reali­zada por Carmen, em sua dissertação de mestrado “Desinfecção térmica de Produtos para Saúde (PPS) e sua preservação em sistema de barreira”, compro­va que os PPS termodesinfetados podem ser armaze­nados no CME por até 70 dias após processamento, quebrando o paradigma existente de que produtos de­sinfetados devem ser utilizados imediatamente após a desinfecção. O estudo contou com profissionais: Profa. Heloisa Helena Karnas Hoefel da UFRGS, a enfermeira Celia Maria Rabaioli, a bióloga Ivana Gottardo Rocha, a engenheira Clínica Dra. Léria Rosane Holsbach, além das equipes da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e a Profa. Dra. Rita Catalina Aquino Caregnato, orientadora do mestrado da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). “As pes­quisas cada vez mais enriquecem com a participação de equipes multidisciplinares”, assinala Carmen.

SOBECC: O que a motivou a realizar esta pesquisa?

Carmen Eulalia Pozzer: Na prática, os Estabelecimentos de Assistência à Saúde (EAS) acabam ar­mazenando o produto, porque é impraticável utilizá-lo imediatamente. A recomendação para uso imediato de PPS desinfetado é baseada em um conceito de que a umidade propicia o crescimento de microrganis­mos. As recomendações de uso imediato não consi­deram que hoje dispomos de equipamentos, como as lavadoras termodesinfetadoras de PPS, que permitem o processamento (pré-limpeza, limpeza, desinfecção térmica e secagem) automatizado, oferecendo vanta­gens como padronização dos processos e a garantia de secagem que, ainda, poderá ser complementada por secadora própria. Outro benefício é a possibilida­de de utilização de um Sistema de Barreira (SB) espe­cífico para produtos desinfetados.

Diante desse cenário, fez-se necessário buscar novos conhecimentos, e um protocolo baseado em evidên­cias, a fim de garantir a segurança do paciente. Assim, conduzimos a investigação para conhecer o tempo de preservação dos PPS após a desinfecção térmica em condições controladas, embalados em SB próprio e armazenamento em local limpo e seco. A finalidade da pesquisa foi buscar o aperfeiçoamento do proces­so, considerando que é fundamental garantir a efeti­vidade do processamento propiciando, assim, a segu­rança do paciente no reuso dos PPS processados.

SOBECC: Comente sobre a pesquisa.

Carmen: Em 2013, realizamos um estudo piloto so­bre carga microbiana de PPS utilizados na assistên­cia respiratória pediátrica após desinfecção térmica e armazenamento sob condições controladas. Para essa pesquisa, foi desenvolvido um SB próprio em parceria com uma indústria, para a guarda e prote­ção dos produtos semicríticos submetidos à desin­fecção, garantindo que eles pudessem ser utiliza­dos sem causar danos. Esse SB próprio e seguro não existia até então. O estudo mostrou não ter ocor­rido crescimento de microrganismos patogênicos nos PPS de assistência ventilatória armazenados até 49 dias. Porém, não apontava o conhecimento da carga microbiana de todas as amostras estudadas, o que nos levou a dar continuidade à pesquisa nesta dissertação de mestrado, validando, portanto, com a carga microbiana conhecida.

“O uso imediato de PPS desinfetado é baseada em um conceito antigo, de 1968, que determinava o tipo de tratamento requerido ao material, e não considera que hoje temos uma ampla oferta de PSS, que surge com o avanço tecnológico, além de equipamentos modernos”.

Para a investigação da pesquisa, foram utilizados PPS de assistência respiratória: máscaras, traqueias e ex­tensores. As amostras, primeiramente, foram esterili­zadas no CME, para serem artificialmente contamina­das com microrganismos Pseudomonas aeruginosa ATCC 27853, um dos prevalentes nas infecções res­piratórias em EAS do Brasil. Após um tempo neces­sário para secagem do inóculo, as amostras retorna­ram ao CME para o processamento, passando pelas etapas: limpeza, desinfecção térmica, secagem, em­balagem em SB próprio, selagem e armazenamen­to. Imediatamente após o processamento, parte das amostras (120 unidades) foi encaminhada para análi­se no laboratório e as demais (140 unidades) envia­das gradativamente ao longo de 70 dias. O resulta­do comprovou que todas as amostras analisadas não apresentaram crescimento bacteriano.

SOBECC: Quais são as condições ideais de processamento que asseguram o uso de PPS armazenados?

Carmen: No Brasil, não existem determinações dos órgãos oficiais para operacionalização de tempo e temperatura das lavadoras termodesinfetadoras. Todo o equipamento em todo o mundo necessita de comprovação da efetividade do seu desempenho por meio de qualificações e com intervenções preventi­vas periódicas determinadas pelos fabricantes e reco­mendações técnicas. Nesta pesquisa, foram utiliza­dos os seguintes parâmetros físicos para desinfecção térmica: água com temperatura entre 90°C e 93°C por 10 minutos e secagem por 20 minutos a 60°C. O detergente utilizado para a limpeza foi um mul­tienzimático, cinco enzimas, em conformidade com a Legislação Sanitária vigente. Para garantir o proces­samento dos produtos até o momento de uso, fo­ram embalados em SB desenvolvido especificamen­te para PPS desinfetados. Os resultados do estudo encontrados sugerem que PPS mantêm-se seguros para uso por até 70 dias após processamento, tempo da condução do estudo. Vale ressaltar que cada insti­tuição deve validar seus processos e que esses dados só podem ser utilizados se o processamento for rea­lizado nas mesmas condições aqui descritas.

SOBECC: Quais são os próximos passos?

Carmen: Com os resultados desta pesquisa, desen­volvemos um vídeo educativo sobre desinfecção tér­mica de PPS para assistência ventilatória e sua pre­servação em SB, que demonstra detalhadamente todos os passos do processamento validado. O estu­do também será submetido a publicações científicas, a fim de informar aos profissionais de CME essa pos­sibilidade de mudança de paradigma.

A Enfermeira Carmen Eulalia Pozzer é Mestre em Ensino na Saúde, com ênfase em Integração e Serviços de Saúde na Formação Profissional, MBA em Gestão Empresarial e ocu­pa o cargo de coordenadora de CME da Irmandade da Santa de Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

Contato: pozzer@santacasa.tche.br



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