A importância da pesquisa científica em Enfermagem

O conhecimento é um impulsionador para que qualquer profissional tenha condições adequadas para oferecer um serviço de qualidade. Nesse sentido, a pesquisa científica se constitui um método de aprendizagem de grande importância, pois o resultado obtido dessa produção contribui para a melhoria contínua das atividades de Enfermagem, nos variados setores da área. 
 A Profª Dra. Vanessa de Brito Poveda, docente da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EE-USP), fala sobre a necessidade de os profissionais pesquisarem sempre.

 

SOBECC: O que é pesquisar?

Vanessa de Brito Poveda: Pesquisa científica é a investigação utilizando o método científico para resolver problemas ou questões, que na Enfermagem podem estar voltadas a uma grande gama de assuntos, que envolvem, principalmente, a assistência, a gestão e o ensino. Para os interessados em pesquisa, sugiro a leitura do livro Fundamentos de Pesquisa em Enfermagem (Polit DF, Beck CT, Hungler BP), que é bastante utilizado pelos enfermeiros.

 

SOBECC: Por que os profissionais de Enfermagem devem estar engajados na atividade de pesquisa e publicá-la?

Vanessa: Todo dia, na prática clínica da Enfermagem, nos deparamos com situações que nos incomodam, ou, que acreditamos haver formas melhores de fazer determinada ação. Isso pode servir de motivação para buscar a pesquisa. A postura “conformada” não pode ser mais o direcionador das atividades da Enfermagem moderna. Devemos apoiar nossas decisões na melhor evidência científica possível, e isso envolve saber consumir pesquisa e, na sequência, pesquisar. Para consumir pesquisa, é preciso desenvolver habilidades de busca do conhecimento já produzido, saber quais são as fontes de dados confiáveis e avaliar a qualidade da informação obtida. É importante frisar que, só porque foi publicado, não significa que seja a melhor prática sobre determinado assunto. Na escolha de intervenções ideais para nossos serviços, sempre devemos pensar em uma tríade: a melhor evidência científica disponível, as preferências do paciente e a capacidade do serviço em ter ou atender ao tipo de evidência. Ou seja, existem os recursos humanos, físicos e materiais necessários para implementar de maneira bem-sucedida aquela intervenção?
Se depois dessas fases não encontrarmos as respostas, ou ainda, se as respostas existem, mas não atendem a realidade do serviço, devemos conduzir a nossa própria pesquisa científica. Isso é muito positivo para o serviço e para o profissional, uma vez que será a análise de sua própria prática, reformulando maneiras de agir, atualizando conhecimentos e envolvendo toda a equipe. Na sequência, verificar os frutos do trabalho compartilhado em congressos ou publicado nos periódicos científicos. Dessa forma, desenvolveremos ainda mais a enfermagem brasileira.

 

SOBECC: Quais são as modalidades  de pesquisa?

Vanessa: Existem muitos tipos diferentes de delineamentos de pesquisa e uma análise aprofundada desse tópico exigiria uma entrevista só para esse assunto. Mas, em linhas gerais e de forma simplificada, cito os estudos de revisão que podem ser revisões sistemáticas e integrativas que utilizam métodos rigorosos de busca e análise de seus achados, e revisões conhecidas como narrativas, em que a estratégia de busca e análise das evidências não ocorre de forma tão detalhada, tendo sido abandonada por esse motivo. Os estudos podem ser desenvolvidos em abordagens quantitativas e qualitativas. Há, ainda, os atuais métodos mistos, que misturam essas abordagens na análise, sendo bastante explorados atualmente. Dentro de cada uma dessas abordagens, existem diferentes delineamentos de pesquisa, adequados a cada tipo de pergunta e situação. Lembrando, se a pesquisa envolver seres humanos, direta ou indiretamente, o projeto precisa ser submetido a um Comitê de Ética em Pesquisa. Outro ponto importante. Em pesquisa, se qualquer parte for inspirada em outro autor deve ser citada no texto. Cabe ressaltar a importância de não se utilizar as mesmas palavras do autor consultado. Ou seja, copiar partes de outros artigos no seu trabalho, ainda que a fonte original seja citada. Isso é conhecido como plágio e constitui um problema ético muito sério.

 

SOBECC: Como você avalia a produção de pesquisa científica na Enfermagem?

Vanessa: A Enfermagem precisa de estudos mais robustos, bem desenhados e que tenham relevância clínica e, principalmente, testem intervenções na nossa área. Quando desejamos fazer um trabalho científico, devemos pensar na contribuição que ele gerará para a profissão, questionando se é relevante, atual e importante para a atuação profissional nos dias atuais, e, ainda, se possui possíveis efeitos benéficos para a comunidade (profissionais, pacientes etc). Sempre precisaremos de mais pesquisas, devido às evoluções da área, por exemplo, lançamentos de novos produtos e descobertas de novas doenças. Mas, sobretudo, precisamos saber exatamente onde queremos chegar. Eu quero uma Enfermagem capaz, resolutiva, autônoma, crítica e respeitada. Sugiro aos pesquisadores buscar temas direcionados para aquilo que fará a diferença (local, regional, nacional ou quem sabe até mundial).

 

SOBECC: Há algum levantamento sobre a quantidade de pesquisas realizadas em CC, RA e CME, nos últimos dois anos?

Vanessa: Existe um trabalho recente publicado na Revista SOBECC, uma revisão integrativa da literatura que analisa a produção científica de Enfermagem em Centro Cirúrgico de 2003 a 2013 (Campos JAR, Costa ACB , Dessotte CAM, Silveira, RCCP. Produção científica da enfermagem de centro cirúrgico de 2003 a 2013. Rev SOBECC. 2015; 20(2):81-95) e diversos outros estudos analisando facetas diferentes da produção. Por exemplo, a produção nacional em 30 anos após a implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem em Centro Cirúrgico (FONSECA RMP, PENICHE, ACG.Enfermagem em centro cirúrgico: trinta anos após criação do Sistema de Assistência de Enfermagem Perioperatória. Acta Paul. Enferm. 
 2009:22(4):428-33). Existe carência de revisões nacionais recentes (últimos cinco anos), avaliando as áreas de RA e CME.

SOBECC: Na sua opinião, quais foram as principais contribuições da pesquisa científica para a área de Enfermagem no Bloco Operatório nos últimos anos?

Vanessa: A contribuição foi muito abrangente e, na minha opinião, fico feliz que tenha se voltado, especialmente, a derrubar mitos do Bloco Operatório, como a necessidade do uso do propé em CC, a prevenção e os cuidados relativos à hipotermia perioperatória, não entendendo mais que “passar frio” seja um evento esperado da cirurgia, até questões de análise de segurança dos processos de esterilização, como material molhado e esterilização de endoscópios. Tenho percebido que precisamos de mais enfermeiros pesquisadores na área de RA.

 

SOBECC: Quais são as orientações para quem deseja iniciar na produção científica?

Vanessa: Acredito que os enfermeiros mais jovens já têm se aproximado da pesquisa desde a sua graduação, com a obrigatoriedade da realização dos Trabalhos de Conclusão de Curso, o que ocorre também quando realizam seus cursos de Especialização. No entanto, percebo que, frequentemente, os profissionais não valorizam essas experiências e as cumprem apenas como mais uma obrigação e não aproveitam como deveriam, no sentido de realmente compreender o que está sendo feito, aproveitando esse momento de interação aluno-orientador, para “sugar” dicas e informações que serão relevantes para toda a sua carreira profissional. No futuro, avançando na carreira, os profissionais sentem falta desses conhecimentos e se sentem impelidos a buscar cursos de mestrado e doutorado para se aprimorar. Então, minha dica é: aproveite bem todas as experiências relacionadas à pesquisa que se apresentarem em sua vida, porque, como em outras áreas de nossa profissão, a diferença está na prática, ou seja, faço melhor aquilo que faço mais!

Profª Dra. Vanessa de Brito Poveda
Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica
Docente da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EE-USP)
vbpoveda@usp.br



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