Endoscópios gastrointestinais flexíveis: desafios e perspectivas

Falhas na limpeza antes da desinfecção dos endoscópios gastrointestinais expõem pacientes a dispositivos contaminados, podendo levá-los a desenvolver uma infecção severa e correr o risco de morte. A não adesão dos profissionais aos protocolos de limpeza, alterações de integridade da superfície interna dos canais endoscópicos gastrointestinais, em consequência aos múltiplos usos, e o design complexo do equipamento podem contribuir para o acúmulo de matéria orgânica e de microrganismos em seu interior, com a formação de biofilme buildup (BBF), que representa maior desafio para remoção. A Enfa. Dra. Maíra Marques Ribeiro, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vem pesquisando sobre o processamento de endoscópios flexíveis desde 2009 e, recentemente, finalizou seu doutorado, que avaliou o impacto da fricção, da solução de limpeza e da subsequente desinfecção de alto nível na remoção de biofilme em canais endoscópicos gastrointestinais flexíveis .

SOBECC: Quais são as etapas e dificuldades do processamento do endoscópio gastrointestinal flexível?

Maíra Marques Ribeiro: Todas as etapas do reprocessamento de endoscópios devem ser minuciosamente realizadas: pré-limpeza, transporte, teste de vedação, limpeza, enxague, secagem, inspeção ou teste de limpeza, desinfecção de alto nível ou esterilização, monitorização do processo, enxágue, secagem, flush com álcool 70%, secagem e armazenamento. No processamento dos endoscópios gastrointestinais há dois grandes desafios: 1) o protocolo de limpeza contempla a necessidade de execução de 80 a 100 passos, aproximadamente, com uma duração de 50 minutos a 1 hora para realizar o processamento de um endoscópio gastrointestinal e; 2) o design complexo com diversos canais, longos e estreitos e alguns inacessíveis à fricção, e várias válvulas não desmontáveis, impossibilitando a visualização interna. O detalhamento requerido para executar todas as etapas confere o risco de falha, principalmente, quando o método manual é adotado. O design complexo pode dificultar ou impossibilitar a acessibilidade dos dispositivos de limpeza como as escovas, contato das soluções de limpeza e desinfecção com a superfície do equipamento, resultando na formação de biofilme buildup na superfície interna dos canais.

SOBECC: Qual é o cenário do processamento de endoscópios gastrointestinais flexíveis?

Maíra: A ocorrência de falhas durante o processamento pode implicar na transmissão cruzada de microrganismos entre pacientes. De 2009 a 2011 desenvolvi um estudo de mestrado, que objetivou avaliar a efetividade do processamento do endoscópio gastrointestinal flexível realizado em serviços de endoscopia de Belo Horizonte (MG). Endoscópios contaminados foram constatados em 91,6% (34) do total de 37 serviços avaliados. Colonoscópios representaram 84,6% (33/39) do total de dispositivos contaminados e os gastrocópios 80,6% (50/62). Foram encontradas bactérias vegetativas, fungos e/ou micobactérias, confirmando que a desinfecção de alto nível não foi atingida. A persistência da contaminação dos endoscópios gastrointestinais, mesmo após o processamento, foi também constatada em vários países, resultando em casos de colonização, infecção e morte de pacientes.

SOBECC: A persistência de contaminação nos endoscópios gastrointestinais resulta
na formação de biofilme buildup. O que significa biofilme buildup?

Maíra: Biofilme consiste em um conjunto de microrganismos embutidos em uma matriz de exopolímeros. O biofilme buildup representa um tipo formado nos endoscópios gastrointestinais e é resultante da exposição a repetidos ciclos de sujidade, limpeza,
desinfecção e secagem. Esse tipo difere do biofilme tradicional que se desenvolve em locais com contínua hidratação. A formação de biofilme buildup nos endoscópios gastrointestinais é uma preocupação mundial, pois, esse tipo de vida microbiana impede que desinfetantes e esterilizantes destruam os microrganismos. Logo, oferece risco de transmissão de microrganismos ao paciente.

SOBECC: Qual é o perigo para o paciente quando não se atinge a efetividade da desinfecção de alto nível?

Maíra: Quando a desinfecção de alto nível não é atingida o paciente pode ser colonizado ou infectado por microrganismos, que se espera eliminar com este nível de infecção (bactérias vegetativas, fungos, micobactérias e vírus envelopados e não envelopados). Em 2016, o endoscópio gastrointestinal foi apontado pelo Instituto Emergency Care Research Institute (ECRI) como a principal tecnologia para saúde capaz de causar danos para o paciente, informando que a limpeza inadequada antes da desinfecção pode disseminar patógenos fatais. A taxa de transmissão de microrganismos, após relacionado a um endoscópio processado inadequadamente, pode alcançar 30% a 40%.

SOBECC: A esterilização dos endoscópios gastrointestinais pode ser a solução para a não transmissão de microrganismos relacionada à endoscopia gastrointestinal?

Maíra: Não. Os casos de infecção documentados demonstram falhas na limpeza, que resultaram, possivelmente, na formação de biofilme na superfície dos endoscópios e, consequentemente, não alcance da desinfecção de alto nível. Se a limpeza não for realizada de forma adequada, a esterilização também falhará.

SOBECC: O que deve reduzir esse risco de transmissão de microrganismos relacionado à endoscopia gastrointestinal?

Maíra: O objetivo principal é não permitir a formação de BBF nos endoscópios gastrointestinais. A remoção do biofilme buildup dos canais endoscópicos pode ser impossível mesmo após vários procedimentos de limpeza e desinfecção ou esterilização, sendo necessário a troca dos canais. Aderir a todas etapas descritas nos manuais e guidelines pode reduzir o risco de infecção, mas não elimina, conforme já apontado pelo American Society Gastrointestinal Endoscopy (ASGE). Isso, porque o design complexo dos endoscópios gastrointestinais dificulta a limpeza, e também os múltiplos usos contribuem para a retenção de matéria orgânica e de microrganismos no interior e, consequente, formação de BBF.

SOBECC: Como prevenir a formação de biofilme nos canais endoscópicos?

Maíra: Realizar o processamento dos endoscópios o mais rápido possível, principalmente, a limpeza e secar adequadamente o equipamento antes do armazenamento. Melhorias no design dos endoscópios são necessárias, como permitir que a fricção seja passível de ser realizada nas partes do equipamento que se contaminam após o exame. Isso não é uma realidade. Os canais de ar/água que apresentaram a maior carga microbiana em endoscópios prontos para uso avaliados em meu mestrado e que são inacessíveis à fricção, a limpeza pode ser realizada somente com flush de detergente e água.

SOBECC: Há perspectivas para a mudança do design dos endoscópios gastrointestinais?

Maíra: Sim. A comprovação de surtos de infecção relacionados à endoscopia gastrointestinal, nos EUA e Europa nos últimos anos, tem resultado no maior rigor de órgãos regulamentadores, como Food and Drug Administration (FDA), em cobrar que os fabricantes validem os protocolos de limpeza e desinfecção dos seus equipamentos no cenário real. Nós, usuários destes equipamentos, incluindo profissionais dos serviços de endoscopia, do controle de infecção relacionada à assistência à saúde e órgãos regulamentadores também temos papel imprescindível em fornecer evidências aos fabricantes dos equipamentos, a fim de
contribuir para as mudanças necessárias no design dos equipamentos para que o processamento seja realizado de forma segura. A vigilância dos pacientes, após os procedimentos endoscópicos gastrointestinais em relação ao desenvolvimento ou não de eventos adversos infecciosos, e conhecer a realidade da efetividade do processamento dos endoscópios dos nossos serviços, são alguns dos passos a serem adotados.

Maíra Marques Ribeiro atua no setor de transplantes do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Possui Mestrado em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas - UFMG (2011) e Doutorado pela Escola de Enfermagem da USP - EEUSP (2016), com orientação da Profa. Dra. Kazuko Uchikawa Graziano. Realizou estágio no St. Boniface Research Center, University of Manitoba, Winnipeg, Manitoba, Canadá (2016), coordenado pela Profa. Dra. Michelle Alfa.

Contato:
mairamarquesribeiro@yahoo.com.br



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