Técnica inédita utiliza picolé na passagem de sondas nasogástrica e nasoentérica

Foi pensando em como amenizar o desconforto dos pacientes na passagem de sondas nasogástrica ou nasoenté- rica, que a Mestre em Enfermagem Soraia Samira Peixoto Queirós descobriu o benefício da utilização do picolé no procedimento. Segundo a enfermeira, a ingestão do sorvete no palito ajuda no processo de deglutição, que é ponto chave na sondagem, além de acalmar os pacientes. A técnica é inédita no país e foi apresentada na disserta- ção do Curso de Mestrado Profissional em Enfermagem, da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (FICSAE) em fevereiro deste ano. Devido ao excelente resultado obtido, Soraia agora viabiliza, a pedido do Hospital Israelita Albert Einstein, onde é enfermeira sênior da Unidade de Gastroenterologia, tornar a técnica de sondagem com ingestão do picolé um protocolo institucional na unidade de Clínica Médica e para pacientes graves.

SOBECC: Como surgiu a ideia de utilizar a ingestão do picolé concomitante à passagem da sonda?
Soraia
: Atuo na área de gastroenterologia há 14 anos. Ao longo desse tempo, observei que a passagem de sonda sempre causou desconfortos ao paciente. Ele sente dor, náusea, sensação de desmaio e até vomita. Essas ocorrências geram um grande trauma. Outro problema é o efeito da ansiedade na diminuição da saliva- ção na passagem da sonda. A ideia surgiu por experiência própria, quando tive amidalite. Percebi que ao ingerir o picolé ocorria uma leve analgesia. Isso me fez questionar se a utilização concomitante do sorvete na sondagem poderia ser um facilitador no processo, bem como um estimulador contínuo para deglutição e produção de saliva.

SOBECC: Você tem conhecimento de algum método similar?
Soraia: Não. Sabe-se que a necessidade de buscar soluções para alívio da dor e do desconforto na passagem de sondas nasogástrica e nasoenteral tem motivado várias pesquisas. Porém, o que se encontra na literatura são estudos relacionados, especificamente, a medicamentos como opções para analgesia, o que, muitas vezes, causam efeitos colaterais nos pacientes. Já com o picolé, não ocorre esse tipo de risco. É uma técnica inédita.

SOBECC: Como é realizado o processo?
Soraia:
Primeiramente, é necessário que o enfermeiro tenha conhecimento da técnica convencional para passagem de sondas nasogástrica e nasoentérica, considerando os mecanismos de sucção, deglutição e salivação, bem como conhecer os materiais utilizados e os cuidados de Enfermagem envolvidos. O processo de sondagem segue o passo a passo da técnica convencional, com diferencial da ingestão do picolé de frutas logo no início do processo. Como habitual, é preciso orientar o paciente sobre tudo o que vai acontecer durante a sondagem e explicar o uso do picolé como instrumento facilitador do processo, reforçando que é necessário succionar o sorvete sem parar. Isso faz com que, na deglutição, a sonda passe facilmente.

SOBECC: Quais foram os relatos dos pacientes sobre a novidade?
Soraia:
Os pacientes que passaram por esta técnica disseram que o picolé melhorou significativamente o desconforto e a dor, evitando, inclusive, o reflexo ao vômito. Outro ponto destacado foi a diminuição da ansiedade durante todo o preparo e passagem da sonda. Isso, explica-se pelo fato de o picolé também promover um momento lúdico, de distração. Em todos os pacientes do grupo experimental, a sonda foi passada de forma assertiva, logo na primeira tentativa.

SOBECC: Como se deu esse estudo de mestrado e quais foram os resultados?
Soraia:
Foi um estudo de campo, analítico, intervencionista, tipo ensaio clinico controlado, randomizado, paralelo, com análise quantitativa dos dados. A população alvo foi constituída por pacientes adultos (maiores de 18 anos) internados em um hospital de extra porte, das unidades de Clínica Médico-Cirúrgica, Oncologia, Semi-intensiva, Pronto Atendimento e Centro de Terapia Intensiva. Foi elaborado um formulário específico com perguntas, que objetivou identificar os desconfortos apresentados em dois grupos de pacientes, o experimental (técnica com picolé) e o controle (técnica convencional), para comparação dos resultados. Foi comprovado que o método inovador melhora a experiência do paciente, proporcionando menor desconforto, facilitando, também, a técnica de sondagem, sem interrupção. Na análise de evidências de associação entre ocorrência de algum desconforto no momento do procedimento, verificamos que entre os pacientes do grupo controle, 90% referiram desconfortos (náuseas, sensação de sufocamento, falta de ar e vômitos), enquanto que entre os pacientes do grupo experimental, apenas 10%. Nesse grupo, quando questionados sobre a técnica de sondagem com ingestão de picolé, 60% dos pacientes relataram que a garganta adormeceu com a sucção ininterrupta do picolé de frutas, e todos (100%) perceberam que o sorvete de palito ajudou na deglutição da sonda e minimizou a ocorrencia de desconfortos.

SOBECC: Por que deve ser utilizado somente o picolé de frutas?
Soraia:
A escolha pelo picolé de frutas, no caso limão ou abacaxi, levou em conta a preocupação de haver possíveis pacientes intolerantes à lactose, e esses sabores também estimulam melhor a salivação.

SOBECC: Quais são os outros benefícios a considerar?
Soraia:
Avalio que essa descoberta muda a experiência do paciente, sem trauma, e favorece a atuação prática do enfermeiro, uma vez que o procedimento também é angustiante para o profissional.

 

Orientações técnicas para sondagem nasogástrica ou nasoentérica com ingestão de picolé:

  1. Antes de iniciar o procedimento, explicar, de forma clara e objetiva, os passos para realização do procedimento e que a técnica será realizada com introdução do picolé de frutas, como facilitador do processo de deglutição.
  2. Perguntar se o paciente é alérgico ou intolerante a Limão ou Abacaxi, e qual sabor ele prefere.
  3. Seguir o passo a passo da técnica convencional, como reunir todo o material, manter o paciente na posição correta, examinar a narina, realizar a higiene, se necessário, entre outros passos.
  4. Oferecer o picolé de frutas para que o paciente inicie o processo de sucção contínua, estimulando, assim, as glândulas salivares e melhorando a deglutição. Orientar o paciente para manter sucção contínua com os lábios hermeticamente selados ao picolé durante todo o procedimento. Isso o deixará distraído dos passos de mensuração e foco no tamanho e calibre da sonda. Seguir o passo a passo conforme técnica convencional, para a inserção da sonda na narina do paciente.
  5. Importante: após passagem da sonda pela concha nasal, solicitar ao paciente para fletir ligeiramente a cabeça (o paciente continua succionando o picolé).
  6. Continuar introduzindo a sonda, e solicitar ao paciente que mantenha o mecanismo de deglutição com o picolé de frutas. Atentar para lateraliza- ção do paciente, a fim de facilitar o posicionamento pós-pilórico da sonda.
  7. Solicitar que o paciente pare de succionar o picolé de frutas, e continuar os procedimentos da técnica convencional para finalizar o processo.
  8. Realizar as devidas anotações no prontuário. Mencionar, na evolução de Enfermagem, que foi realizada com técnica de ingestão de picolé.
  9. Solicitar que o paciente pare de succionar o picolé de frutas, e continuar os procedimentos da técnica convencional para finalizar o processo.
  10. Realizar as devidas anotações no prontuário. Mencionar, na evolução de Enfermagem, que foi realizada com técnica de ingestão de picolé.

 

A dissertação de Mestrado Profissional em Enfermagem foi orientada pela Profa. Dra. Rachel de Carvalho, da FICSAE. Para contato com a autora desta técnica, envie um e-mail para: soraia1177@uol.com.br.



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