Novo modelo de escala ganha destaque internacional

A Doutora em Enfermagem Camila Mendonça de Moraes Lopes, professora adjunta na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ – Campus Macaé), do núcleo de Enfermagem Médico-Cirúrgica, especialista em Engenharia Biomédica, é autora da inédita Escala de Avaliação de Risco para o Desenvolvimento de Lesões decorrentes do Posicionamento Cirúrgico do Paciente (ELPO). Camila iniciou o desenvolvimento da escala durante a sua tese de Mestrado, em 2013, com o propósito de nortear a prática clínica do enfermeiro perioperatório. Na entrevista abaixo, a autora explica como a ferramenta é importante para a rápida tomada de decisão sobre o cuidado do paciente durante o posicionamento cirúrgico.

SOBECC com Você (SCV): O que a motivou a desenvolver esta escala específica para Centro Cirúrgico? Camila M. M. Lopes (CMML): O posicionamento cirúrgico deve ser realizado com todo cuidado. O enfermeiro deve ter o conhecimento para propor intervenções e prevenir as complicações decorrentes da permanência prolongada do paciente em cada tipo de posição cirúrgica. Ao longo da minha carreira, observei que o assunto gera muitas dúvidas, e não há muita evidência de resultados comprovando que todos os tipos de posicionamento implicam em algum grau de risco. Por isso, o meu interesse pelo tema para o desenvolvimento da ELPO como uma estratégia eficaz para implementação de ações que auxiliem e direcionem o profissional na redução dos riscos de lesões decorrentes da posição cirúrgica.

SCV: Como foi construída a escala? CMML: A escala foi fundamentada em evidências recentes sobre as implicações fisiológicas e possíveis complicações pós-operatórias relacionadas ao posicionamento cirúrgico do paciente no período intraoperatório. O formato de medidas teve como modelo a escala de Braden, muito utilizada para avaliar os riscos de Úlceras por Pressão (UPP), porém, alguns critérios dessa escala não se encaixam na fase intraoperatória, e há estudos comprovando que ela não é tão eficaz nesse período. Então, organizei e formatei a ELPO baseada nas informações e estudos sobre as implicações anatômicas de cada posicionamento cirúrgico e defini os itens, que representam maior ou menor risco para desenvolvimento de lesões. Fiz a validação aparente de conteúdo e obtive concordância de 88% dos 30 juízes participantes desse processo. Depois a escala passou pela validação de campo, na qual foram analisados dois desfechos, o de UPP e o de dor relacionada ao posicionamento durante a cirurgia. Também comparei os dados com a escala de Braden. Os pacientes que tinham sinalizado risco maior pela escala de Braden também tiveram risco alto pela ELPO. E, por último, a escala passou pela validação de confiabialidade interobservadores, comparando os escores da ELPO por dois observadores independentes, e os resultados foram idênticos.

SCV: Como funciona a ELPO? CMML: A ELPO contém sete (7) itens: tipo de posição cirúrgica, tempo de cirurgia, tipo de anestesia, superfície de suporte, posição dos membros, comorbidades e idade do paciente, e cada um desses tópicos apresentam cinco (5) subitens, com escore de 1 a 5, para mensurar menor e maior risco. A ELPO avalia o risco de UPP, complicações tegumentares e de dor não relacionada à incisão cirúrgica.

SCV: Pode exemplificar uma avaliação  com a ELPO? CMML: A utilização da escala é bem fácil. Exemplo de um caso durante o período de validação da ELPO. Um paciente jovem, 23 anos, sem comorbidades e peso dentro da normalidade, foi submetido à anestesia geral, em posição supina com mais de seis horas de cirurgia. Apenas o colchão de espuma fixo (rígido) foi utilizado. Durante o posicionamento, o escore da ELPO foi de 20. Resultado: o paciente foi acometido de UPP nas costas, estágio I, com 17cm x 10cm de extensão. Cada ponto a mais na escala aumenta em 44% a chance de o paciente desenvolver UPP e 28% a chance de dor, que é um sinal de lesão nervosa. Essas evidências são da pesquisa de campo do meu doutorado. O escore acima de 20 caracteriza risco maior de lesão. Portanto, a ELPO sinaliza que é preciso intervir e fazer algo para a segurança do paciente. A escala não é rígida, pode ser adaptada à realidade do hospital, é bem didática e ainda serve de subsídio para elaborar protocolos nos hospitais a fim de justificar investimentos com superfícies de suporte melhores.

SCV: Quais instituições já utilizam o modelo? CMML: Primeiro a ELPO passou pelas validações necessárias, para somente começar a ser introduzida em alguns hospitais. Desde o ano passado, a escala já está em uso no Sírio Libanês, Beneficência Portuguesa, AACD e São José, na capital paulista, e no Hospital das Clínicas da Unicamp, em Campinas. No Sírio Libanês, por exemplo, a escala está

sendo utilizada com o objetivo de implementar um protocolo institucional de posicionamento cirúrgico de acordo com a realidade da instituição. E, recentemente, a ELPO foi apresentada na AORN.

SCV: O que representa a ELPO para Enfermagem Perioperatória? CMML: Considero a escala uma grande conquista para a Enfermagem Perioperatória brasileira. Ela estimula uma mudança de cultura, de avaliar o risco de lesão por posicionamento no pré e pós-operatório, além de permitir que os hospitais possam construir os próprios protocolos de posicionamento, direcionando rapidamente a equipe sobre o que fazer quando o escore for superior a 20 (quadro de risco). Vale ressaltar que é imprescindível que o enfermeiro tenha total conhecimento das alterações anatômicas e fisiológicas decorrentes do posicionamento cirúrgico no organismo do paciente, bem como equipamentos e dispositivos disponíveis para auxiliar nesse procedimento. Sem esse entendimento, a implementação da escala não será tão eficiente.



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